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Falsas políticas de representatividade e apropriações comerciais da causa feminista são comuns na cena eletrônica. A edição INTERVENÇÃO HISTÉRICA foi um marco histórico na luta da BATEU contra esses padrões, sendo pensada e executada só por mulheres, do lineup à gerência. Confira o processo criativo dos bastidores e reviva a emoção da festa com os sets e depoimentos das DJs convidadas!

Uma pesquisa realizada pela ABRTA, analisando os lineups das principais festas de música eletrônica na América Latina em 2018, evidencia o machismo na cena expressado pela carência de DJs mulheres. Em Santa Catarina, as cidades Itajaí e Camboriú foram analisadas, apresentando somente 12% de representatividade feminina entre DJs dos eventos. Embora Florianópolis tenha ficado fora da pesquisa, sabemos pela experiência que a mesma lógica é reproduzida em nossa cidade, com uma cota mínima de mulheres nos lineups.

Pesquisada realizada pela ABRTA

Pesquisada realizada pela ABRTA

Nos bastidores da cena eletrônica, a atuação feminina costuma ser ainda menor. Nos últimos anos, muitos eventos passaram a incluir mulheres em seus lineups somente para atender uma demanda do público por representatividade, sem compromisso real com a causa, e festas só com DJs mulheres passaram a ser frequentes em clubes. Enquanto isso, setores de criação, produção e gerência continuaram sendo ocupados quase que exclusivamente por homens. Sobre essa representatividade falsa e a apropriação da causa feminista como estratégia de marketing, nossa gerente Edinara Rebonatto aponta que “como produtora de eventos já participei de muitas edições ‘das mulheres’ e a cada uma delas saía mais frustrada, pois os eventos não cumpriam a proposta ideológica”.

Mesmo em nosso movimento, que tem a representatividade em todas as esferas como um dos objetivos principais, algumas colaboradoras se sentiam pouco representadas, enxergando um foco gay no projeto e uma necessidade de mudança. É o caso da Laró Prazeres, hostess desde as primeiras edições e responsável pela beleza nos ensaios de fotografia e vídeo. Segundo ela, “conseguir organizar uma bateu totalmente produzida por mulheres, com mulheres trabalhando em todos os setores da festa e um ensaio cheio de mulher era meu sonho!”.

A Intervenção Histérica - Lara AlbrechtA Intervenção Histérica - Lara Albrecht

A Intervenção Histérica – Lara Albrecht

Nesse contexto, as mulheres que fazem parte da nossa equipe idealizaram uma edição da BATEU em que todas as esferas de colaboração fossem ocupadas apenas por mulheres, desde DJs, performers, passando pela cenografia, staff, marketing e criação audiovisual, até a gerência. Desse projeto nasceu a BATEU A INTERVENÇÃO HISTÉRICA, que aconteceu no dia 08 de fevereiro, uma noite calorosa, repleta de rostos sorrindo, corpos dançando, suando e celebrando a vida. Lara Albrecht, a frente da direção e fotografia em nossos ensaios, acredita que “conseguimos vivenciar durante a festa, um pouco da sociedade que sonhamos – inclusiva, colorida, vibrante, diversa, igualitária. Temos muito ainda como evoluir, como cena, movimento, festa, e cidadãs. Foi o primeiro passo de uma nova era, que emerge de tantos fatores de uma sociedade em constante mudança como vivenciamos hoje”.

 

O patriarcado ainda opera culturalmente em nossa sociedade mesmo em espaços em desconstrução. A realização dessa edição foi um passo muito importante em nosso movimento – e que deve ser repetido! Luisa Talulah, a frente da produção dos ensaios visuais, entende que “a Intervenção Histérica veio como uma apropriação de um espaço que é nosso por direito. Vejo como um brado de revolta contra o sistema que nos oprime e capitaliza as nossas lutas, e isso só vai ser mudado quando tivermos mulheres em posições de destaque e decisão nos processos”. 

Toda a potência reunida em nossa equipe resultou em recorde de público e excelente feedback da experiência, que recebemos em formulário pós-evento. É um reflexo do trabalho duro e profissional dessa equipe tão diversa de mulheres que pensou em cada detalhe. Para Ariana Almeida, que trabalha na criação dos temas das festas e é responsável pela lista de acesso gratuito a pessoas trans, “o sucesso dessa edição mostrou que somos muito mais do que a sociedade machista diz sobre nós, o que nos falta é espaço. É muito importante criar ambientes de conforto e respeito, e essa BATEU bateu diferente pra gente e pro público, foi leve, gostosinho, como tem que ser sempre”.

A Intervenção Histérica - Lara Albrecht

A Intervenção Histérica – Lara Albrecht

As DJs ferveram a nossa pista e se emocionaram com a conexão do público. Confira agora como cada uma se sentiu ao expressar a sua arte:

Luna Tik

“Tocar o que eu amo e sentir a pista vibrando intensamente comigo, não tem preço. Foi uma festa muito marcante para mim, com um público totalmente entregue, é uma delícia tocar quando é assim. As mulheres por trás de tudo isso foram impecáveis em todos os aspectos, com muito profissionalismo.”

DUE

“Conhecer a BATEU foi muito especial, além da festa pude perceber um movimento revolucionário ali. Estava no lugar certo na hora certa. Aquela pista foi uma surpresa maravilhosa. Muito diversa e livre também. Me senti em casa, conectada. O santo BATEU!”

Fritzzo

“Assim que me mudei para Santa Catarina e desde o momento em que conheci a BATEU, me senti parte de uma experiência de sociedade em que eu acredito, onde os corpos celebram livres. Ter tocado especialmente na edição da festa que foi produzida e criada por mulheres foi um momento muito gratificante na minha vida, é importante expressar a voz da mulher e construir um espaço verdadeiro e de luta política.”

Chroma

“A BATEU fez parte da minha trajetória e crescimento como DJ antes mesmo de vir morar em Florianópolis, quando eu apenas admirava a festa e sonhava tocar nela. É muito gratificante fazer parte disso tudo que a BATEU significa, ainda mais numa edição produzida só por mulheres. Ter visto tantas minas que eu admiro na pista e ainda ter a oportunidade de tocar junto com elas foi bastante emocionante. Além disso, tive uma das pistas mais calorosas da vida nessa edição, sinérgica do início ao fim. Sentimento único.”

Noizzed

“A sensação de missão cumprida foi alcançada. Ver o evento superando as expectativas criadas, nos deu mais gás e ânimo. Apesar das adversidades encontradas no decorrer da festa, tivemos sucesso por causa da união e pró atividade de todas as mulheres envolvidas, mostramos o poder da mulher unida. Sonoramente, construímos uma pista cheia de energia e amor, tudo com muita força, identidade e paixão. Foi gratificante ver o resultado do que todas fizeram.”

Quando a primeira reunião foi realizada pelas integrantes, percebemos que cada uma carregava em si uma representatividade e uma voz. Através dessa união de diferentes vivências femininas essa edição se tornou única. A Intervenção Histérica foi um marco em nossa história e uma experiência inesquecível para nossa equipe e público. Além das mulheres que já citamos em nosso texto, aproveitamos esse espaço para agradecer às outras integrantes que trabalharam na festa e no ensaio de fotografia e vídeo: hostess Aline Balancelli e Lirous K’yo; performers Beatriz Delfino, Ju Santos e Maiteh Carraro; modelos Flávia Ecezano, Manuela Moreira e Julia Lie; e vídeo maker Rafaella Whitaker.

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