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Vivemos em um tempo em que a imagem impera como mais significante veículo de comunicação. Mídias sociais, campanhas publicitárias, produções audiovisuais e inúmeras variantes desse tão amplo formato se manifestam diariamente. No entanto é necessário nos questionarmos: que imagens são essas? Onde elas circulam? E, principalmente: que sociedade elas constroem? Aqui nos perguntamos: Quais corpos são iluminados somente pelos flashs e holofotes da noite e quais são permitidos serem vistos à luz do dia?

O cistema e a apropriação dos corpos

O sistema capitalista cria, em cima de pautas sociopolíticas, mecanismos de consumo afirmando inclusão. No entanto essa inclusão ocorre de maneira extremamente seletiva, de forma que ao fazê-la, não sejam colocados em questionamento preceitos enraizados na cultura, no imaginário social. Seguindo esse raciocínio, centramos a discussão para a presença de corpos Trans na indústria da imagem, quais desses corpos são retratados no centro dos holofotes e quais os corpos que o CIStema faz questão de alocar nas sombras.

Aqui é necessário pontuar o conceito da passabilidade, para que possamos analisar esse conceito de forma crítica, percebendo-o como medidor qualitativo que o CIStema faz da transgeneridade. A passabilidade é um medidor de leitura social, relacionado a quanto um corpo, uma corpa, um corpe trans possui características similares ao corpo cisgênero. O grande problema desse conceito não é a sua existência, mas sim o seu uso. Usar a passabilidade como forma de hierarquizar corpos plurais e vê-la como algo a ser buscado é a problemática. E é com esse medidor que os grandes veículos de comunicação, na fabricação do discurso da inclusão, fazem suas escolhas.

Esse processo cria duas extremidades: de um lado a participação de corpos passáveis nas grandes mídias e do outro os corpos que não se constroem na passabilidade e que acabam por se restringirem a espaços que fogem dos padrões sociais, como o underground.

NATASHA DHUMONT (Foto: Claudia Guimarães) – A exposição “Cara, Corpo e Voz!” resgata a cena do underground paulistano da década de 1990.

Folhear uma revista de moda, assistir um comercial e cruzar com um outdoor estampado por uma figura transgênera é de imenso valor e avanço histórico. Porém esses espaços são os regulados pelo CIStema, e por isso a participação desses corpos é limitada. Nomes como: Lea T e Valentina Sampaio saltam na mente analisando esse contexto. São duas modelos brasileiras e transexuais que ocuparam o alto escalão da indústria da moda. Ambas possuem suas inúmeras capas de revistas, desfiles de grandes marcas… E ambas são detentoras dessa passabilidade, ou seja, suas figuras enquanto modelos transsexuais não colocam em questionamento valores de feminilidade tão fortemente impostos pela cultura da imagem. Suas figuras foram apropriadas no discurso da inclusão, e aqui deixamos claro que não negamos a importância de elas ocuparem esses espaços, mas não se pode achar que ter apenas essas figuras como exemplo seja suficiente. E os corpos que não são passáveis e não querem ser?

Lea T na capa da revista Elle Brasil na edição de dezembro de 2017.

Valentina Sampaio na capa da revista Vogue Paris na edição de março de 2017.

Citando trecho do Manifesto Traveco Terrorista de Tertuliana Lustosa, travesti nordestina, acadêmica e DJ: “As formas de apagamento dos corpos fora do binarismo masculino-feminino se dão por meio de uma constante tentativa de adequação dos corpos trans ao regime político da heterônoma antropocêntrica.” Corpos que não atendem o que é esperado de ser homem ou mulher pela sociedade binária são extremamente apagados, e aqueles que se adequam são postos como exemplo, de como se deve ser trans, sendo que na verdade o que ocorre é apenas uma reprodução compulsória da cisgeneridade.

O underground como espaço de segurança e limitação 

Aqui entra em discussão o espaço da cultura noturna, da cena underground, da contracultura. Esse espaço sociopolítico e cultural é historicamente de maior segurança para população LGBTQI+. Espaço que permitiu a efervescência da liberdade sexual e da expressão plural de gênero e é fundamental no histórico da militância da sigla, levantando debates e questionamentos sobre a cis hetero norma. E é aqui que estão alocados corpos, corpas e corpes que fogem da narrativa tradicional do gênero, figuras que politicamente questionam os conceitos de uma identidade visual estabelecida. Mas é importante entender esse espaço não como um local de escolha, mas sim como um local de maior segurança em relação a outros, tornando-o dessa forma um LOCAL IMPOSTO.

Mais uma vez recorrendo às palavras de Tertuliana Lustosa: “O efeito do corpo em desajuste com a construção cisgênera do binarismo produz uma reação de revolta […]”. Então entender que esse contexto da cena noturna, afastado da circulação das massas (entendendo essas massas como extremamente transfóbicas no país que mais mata pessoas trans) se tornam seguros justamente por esse afastamento, que permite a celebração da diversidade.

Maiteh Carraro, nome reconhecido na cena noturna florianopolitana, performa na quarta edição da festa Glitch, 14 de novembro de 2019, durante o set da DJ Celestia. (Foto: Lara Albrecht)

A realidade dominante  da vida de pessoas T é severa. Estamos falando de uma população majoritariamente alocada na prostituição – 90% da população trans no Brasil recorre à prostituição como forma de sobrevivência, segundo a ANTRA, Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Pessoas com uma expectativa de vida de 35 anos (IBGE – 2016); que no período de 2012 a 2016 quantificou 2190 mortes por transfobia no mundo, sendo 868 só no Brasil, o que o torna o país que mais mata corpos, corpas e corpes T no mundo (Transgender Europe – 2016), ao mesmo tempo em que é também o país que mais consome pornografia desse gênero. Uma população vivendo distante da sociabilização diurna, concentrando a vida na noite, como forma de segurança, um mecanismo de sobrevivência. A manifestação T na cena underground não ocorre por acaso, e sim por necessidade, imposição social da cisheteronorma. Esse se torna sociopoliticamente o único espaço de ocupação possível para os corpos sem passabilidade, que não são validados pela mídia, pela indústria, e consequentemente pela estrutura de uma sociedade. Se tornando para além de um lugar de refúgio, um espaço de oportunidade de trabalho e, falando de cultura da imagem, pensando esse trabalho como o desenvolvimento da arte, os tendo enquanto artistas: na performance, no teatro, na música, na moda…

Mas por que esse espaço é limitador? Não podemos achar que é suficiente que esses corpos “desviados” da normatividade do gênero ocupem apenas esses espaços. Somente através da ocupação nos grandes veículos de comunicação, inclusão e representatividade na cultura da imagem deixam de ser apenas discurso. Pensar a retratação realmente plural dos corpos e das vivências é essencial para que as massas visualizem nossa existência nos holofotes e nos respeitem nos espaços de convívios da vida diurna, nos colocando à luz das discussões do cotidiano de uma sociedade. Precisamos ser vistas para que possamos ser respeitadas.

ANDREA DE MAIO (Foto: Claudia Guimarães) – A exposição “Cara, Corpo e Voz!”.

RONALDA (Foto: Claudia Guimarães) – A exposição “Cara, Corpo e Voz!”.

Ocupação na grande mídia… rumo à luz do dia

Com a intensificação dos debates, o aumento da cobrança de posicionamento de marcas, as personalidades, os espaços sociais e a força da internet, o cistema vem sendo pressionado e tentando se adaptar. Pontuamos aqui que não acreditamos em uma mudança real do sistema, pois sua capacidade de adaptação é enorme. Essa mudança progressiva se apresenta com a ocupação de corpos, corpas e corpes transsexuais, travestis e não-bináries em espaços em que tradicionalmente não estavam.

Observar artistas como Liniker, Linn da Quebrada, Jup do Bairro, Urias, todas artistas que além de serem trans são negras, ocupando posição de destaque nas plataformas musicais, nas campanhas publicitárias nacionais, nas passarelas, nas novelas e diversos meios de comunicação, sendo essas pessoas que tiveram suas raízes em cenários de contracultura, é de acalentar corações e nos dá um pouco de esperança. 

No entanto, é necessário pensar que esse espaço da arte possui suas muitas flexibilidades. Mas e a presença desses corpes em outros cenários? Cenários tradicionais como: a faculdade de direito, a empreendedora, a dentista, e a construtora… Você já pensou com quantas pessoas trans você convive no seu dia a dia? Por que você, quando acontece, só as vê sendo celebradas em momentos e lugares específicos?

Jup do Bairro (Foto: Caio Ramalho, Felipe Damasco e Karla Brigths) – VOGUE Brasil

Linn da Quebrada como Natasha em ‘Segunda Chamada’ (Foto: Mauricio Fidalgo/Globo)

Pensando nesses corpos e suas formas plurais de gênero como os reais desestabilizadores do binarismo, trabalhando suas formas plurais, é que se chega à conclusão de que, como esses corpos não validam as estruturas sis(cis)têmicas do gênero na imagem e na moda, são colocados de lado na representação midiática, sendo assim esquecidos do imaginário social, do convívio das massas, mantendo-se assim na contracultura. A grande questão é que, nessa estrutura, esses corpos são invisibilizados, e dessa forma são excluídos das políticas públicas, do acesso a direitos básicos da humanidade. 

Para compreender como essa exclusão deliberada acontece, é necessário entender a contextualização da nossa sociedade dentro do capitalismo, que trabalha com a criação de necessidades e desejos relacionados ao consumo como forma de estimular prazer, felicidade, sustentando uma lógica compulsiva e cíclica desse consumo. Esse sistema com imensa capacidade de adaptação aos tempos vai se moldando com as transformações sociais temporais. E aqui refletimos sobre um ponto: o sistema muda a sociedade ou a sociedade muda  sistema? Talvez, a situação seja uma via de mão dupla. Ambos se influenciam de forma simbiótica: a sociedade muda com as adaptações sistêmicas e as proporciona ao mesmo passo. Nesse momento percebe-se um entrave, responsável pela falha em representações da diversidade: enquanto não for financeiramente viável para o sistema trazer as pluralidades para os holofotes, para a luz do dia, ele não o fará. Ao tomar essa posição entendemos que não temos uma sociedade disposta a conviver com essas diversidades. Porém quando estará pronta? Quando será “viável”? Enquanto respeita-se a lógica do lucro, corpos, corpas e corpes são marginalizados, mortos e invisíveis aos olhos do uma sociedade.

Pensar tempo e espaço é fundamental para que se discutam mudanças. Devemos entender essa lógica de funcionamento do capitalismo. Enquanto ele ainda exerce domínio total sobre os aspectos do tempo presente, precisamos pensar em como fazer com que as pessoas T saiam das margens e participem ativamente desse funcionamento social, que assim como pessoas cis, tenham seus espaços no mercado de trabalho e “à luz do dia” garantidos.

Pensar a efetiva mudança de um CIStema construído na binaridade do gênero, que atua de forma excludente, impositiva e violenta sobre os corpes, corpas e corpos que ousam se colocar de forma alheia à essa composição polar é pensar um processo transversal. Utilizar dos recursos de mídia, comunicação, criação, design (considerando aqui atuações da Indústria da Imagem) de forma ativista, priorizando a atuação POR e PARA a população T. Feitas por, entendendo que, ao colocar os corpos marginalizados nas posições de real influência sobre sua vivência, reduz-se a chance de cometer apropriações distorcidas. Feitas para, pensando sempre em pautar realidades e vivências plurais, tirando a centralidade de conteúdos das narrativas hegemônicas.

Festa Batekoo em 2017 (Foto: Fábio Júnior)

Por

Arthur Giraldo

Arthur, Arthure, Artura, não-binarie paulistana, bacharelando em Moda pela UDESC, centrando suas pesquisas nas temáticas de gênero e construção de imagem. Atua como modelo, trabalha com styling, produção de moda e produção de eventos na cena noturna florianopolitana.
@arthur_giraldo

Ariana Almeida

Ariana Almeida é uma artista paraense, estudante de moda, trabalha em eventos e produção, travesti presente na cena noturna de florianópolis.
@ariana.grandona