fbpx
O house emergiu da disco infundindo quase todas as expressões musicais modernas. O que aconteceu com suas raízes LGBTIs, negras e latinas nesse processo? Analisamos como a indústria musical apaga identidades socialmente minoritárias na popularização de subculturas e quais são os passos necessários para realizarmos esse resgate.

O mês de junho tem como marco o aniversário do movimento revolucionário de Stonewall, e com ele a sociedade é convidada a pensar nas pautas históricas, sociais e identitárias da comunidade LGBTI. Estudar a memória de um grupo social marginalizado é um fator importante porque elas não se difundem em meios oficiais como livros e jornais. Compreender a maneira como um grupo social fala sobre seu passado pode ser entendido como uma forma de contestação do presente e como proposta de um projeto social de futuro.

Os grupos sociais podem ser caracterizados por seus aspectos expressivos e culturais: seu conjunto de vestuário, a linguagem, a música que escutam, as referências artísticas, o espaço urbano que ocupam. São formados das relações entre as pessoas pelas suas identificações, seja de atração ou de repulsa (eu sou isso porque não sou aquilo, o outro também não é aquilo, então nos identificamos). O conjunto de valores e as visões de mundo de um grupo criam em torno dele uma fronteira simbólica.

A modernidade e o capitalismo trazem consigo um aspecto inerente à sua condição: a maneira acelerada como a branquitude e a burguesia antropofagiam os aspectos culturais dos trabalhadores e das minorias sociais, retirando seus símbolos e suas raízes. Esse movimento pode ser identificado, por exemplo, com o rock and roll que surgiu da negritude do blues e do R&B, e consagrou como rei Elvis Presley; podemos citar o punk, um dos mais conhecidos movimentos contra culturais do século XX, que acabou sendo apropriado por diversas marcas de moda virando um estilo visual; também vale lembrar o movimento do hip hop, que depois dos anos 00’s teve uma guinada, na mídia mainstream, ao glamour e passa a ter como símbolo visual na mídia a família Jenner-Kardashian. O mesmo aconteceu com a disco nos anos 1970 e vem acontecendo com o house até os dias de hoje.

O gênero musical nasceu em Chicago, com criações amadoras e experimentais de DJs que, buscando suprir a demanda por músicas novas e exclusivas depois que a indústria musical abandonou a disco, começaram a explorar sintetizadores e baterias eletrônicas, culminando em um som mais rápido e eletrônico, voltado para a dança nas pistas de clubes. O primeiro lançamento oficial de house aconteceu em 1984, com a faixa “On and On” de Jesse Saunders, porém, desde os primórdios do clube Warehouse em Chicago, Frankie Knuckles já estava utilizando instrumentos eletrônicos para criar versões novas das músicas que rolavam no clube, uma fusão de funk, soul, disco e synthpop. A cultura da qual o house nasceu, entretanto, teve seu início em Nova Iorque.

O nascimento da cultura disco em Nova Iorque

Nos anos 60, a população LGBTI enfrentava muita dificuldade na cidade com a pesada legislação anti-LGBTI vigente. As pessoas eram obrigadas a vestir pelo menos três peças de roupas associadas ao seu sexo biológico e eram proibidas de dançarem com outras pessoas de mesmo gênero. O atendimento à pessoas LGBTIs era proibido aos bares e os poucos espaços que desafiavam essa lei eram mantidos pelo crime organizado, o que aumentava ainda mais a vulnerabilidade social da comunidade. Invasões da polícia a esses bares eram frequentes, ocasionando em prisões de pessoas trans e drag queens. Cansada de tanta opressão, a população LGBTI se rebelou contra uma invasão no bar Stonewall em 1969, dando início à diversas manifestações que impulsionaram a formação do movimento LGBTI como conhecemos hoje.

Masha P. Johnson em manifestação da Gay Liberation Front (Diana Davies/The New York Public Library)

Masha P. Johnson em manifestação da Gay Liberation Front (Diana Davies/The New York Public Library)

Com os avanços do movimento negro pelos direitos civis e pelo fim da segregação racial, a sociedade começava a mostrar os primeiros sinais de uma integração entre pessoas negras, latinas e brancas e pessoas LGBTIs, heterossexuais e cisgêneras. Nesse contexto, David Mancuso, um DJ hippie que viveu o movimento psicodélico e acreditava numa sociedade de paz, amor e diversidade, começou em 1970 a festa The Loft em seu apartamento, sem fins lucrativos e apenas para pessoas convidadas, priorizando a diversidade sexual, racial e econômica no público, sendo como único pré-requisito a vontade de ouvir música, dançar e se permitir quebrar barreiras sociais. Segundo Alex Rosner, responsável pelo sistema de som das festas, “o público era provavelmente 60% negro e 70% gay”. Nessa época, o termo “gay” era utilizado para representar toda a sigla LGBTI, assim podemos presumir que lésbicas, bissexuais e pessoas trans também frequentavam o The Loft.

A sensibilidade de David Mancuso na discotecagem, tocando R&B, soul e outras viagens psicodélicas, somado a experimentação com LSD, criava uma sintonia entre os diferentes grupos sociais jamais vivida antes pela sociedade. Enquanto a maioria dos bares e clubes voltados ao público LGBTI tinham a paquera como objetivo principal, a experiência com a música e a dança ganhava o protagonismo no The Loft, que rapidamente se tornou a festa mais desejada de Nova Iorque. Reunindo semanalmente centenas de pessoas, o The Loft se tornou o protótipo para os clubes e a cultura disco que estariam por vir, além de uma escola para Larry Levan e Frankie Knuckles.

The Loft (Love Saves the Day: A History of American Dance Music Culture)

The Loft (Love Saves the Day: A History of American Dance Music Culture)

Muito antes de Larry e Frankie se consagrarem como os DJs mais influentes de todos os tempos, eles estiveram envolvidos na cena dos drag balls, eventos em que LGBTIs competiam por prêmios e glória com montações e performances, e que eventualmente originaram a dança vogue. Peter Shapiro cita em seu artigo “Saturday Mass: Larry Levan and the Paradise Garage“, publicado pelo portal Red Bull Music Academy, que Larry conheceu Frankie Knuckles em 1969 enquanto costurava um vestido para uma drag queen, se tornando amigos inseparáveis. Quando as consequências da Rebelião de Stonewall permitiram que a vida noturna LGBTI saísse do armário, eles desviaram seu foco da cena dos drag balls para os clubes que estavam surgindo, mas foi quando conheceram o The Loft que despertaram para o caminho na música que viriam a trilhar.

No começo de 1972 surgiu o primeiro clube comercial seguindo a visão de festa ideal do The Loft. Nicky Siano abriu o The Gallery e convidou Larry Levan e Frankie Knuckles para decorarem o clube, servirem a mesa de comida e distribuírem LSD ao público. Numa noite, quando o clube estava fechado, Larry perguntou ao Nicky se poderia tocar alguns vinis no sistema de som e Nicky aproveitou para ensinar algumas noções básicas de mixagem a Larry. Um ano depois, com 18 anos de idade, Larry tocou publicamente pela primeira vez, conquistando sua primeira residência em seguida, na sauna gay Continental Baths, que tinha pista de dança, piscina olímpica, academia, restaurante, clínica para tratamentos de ISTs e capacidade para atender mais de 1000 homens, funcionando 24h por dia (aloka!). No mesmo período, Frankie Knuckles tocava pela primeira vez no Better Days, com 16 anos de idade, e cuidava da iluminação na Continental Baths durante os sets de Larry, substituindo-o muitas vezes. Enquanto os dois artistas iniciavam suas carreiras, a cultura Disco começava a dar forma ao gênero musical que receberia o mesmo nome, a partir da fusão de R&B, funk, soul e salsa, com a influência da cultura hippie e psicodélica, tanto na estética sonora quanto nos valores de “paz e amor” presentes nas letras das músicas.

Frankie Knuckles e Larry Levan na sauna Continental Baths (Bob Casey)

Frankie Knuckles e Larry Levan na sauna Continental Baths (Bob Casey)

Nos anos seguintes, depois de aperfeiçoar sua técnica e conquistar um público fiel pela cidade, Larry largou sua residência na sauna, deixando sua vaga para Frankie Knuckles. O novo clube Soho Place estava abrindo e Larry foi convidado para ser residente, mas com problemas de isolamento acústico, logo fechou. Michael Brody então convidou Larry para tocar no recém inaugurado Reade Street, onde Larry desenvolveria sua sensibilidade e identidade únicas. Em 1976, Michael fechou o Reade Street para construir outro clube maior, para milhares de pessoas, em uma garagem abandonada, com Larry em mente como grande atração das noites. Aberto em 1977, no ápice da popularidade da disco, o Paradise Garage tinha o melhor sistema de som da cidade e se tornou nos anos seguintes tão influente quanto o The Loft.

Fila do Paradise Garage (Paul McKee)

Fila do Paradise Garage (Paul McKee)

Robert Williams, um frequentador da cena de Nova Iorque, abriu o Warehouse em Chicago no mesmo ano. Alguns clubes já estavam estabelecidos na cidade, como o Den One, onde Ron Hardy iniciava sua carreira. Robert queria um DJ residente de peso para competir com a concorrência e convidou Larry Levan, que recusou por estar fechado com o Paradise Garage. Robert convidou então Frankie Knuckles, que estava sem nenhuma residência desde que o Continental Baths havia falido um ano antes, e ele aceitou.

A Ascensão e a Queda da Disco

Ainda em 1977, “I Feel Love” de Donna Summer é lançada, atingindo o topo das paradas musicais nos Estados Unidos e em diversos países da Europa. No mesmo ano, John Travolta estrelou em “Os Embalos de Sábado à Noite”, embranquecendo a cultura disco e conquistando o público heterosexual masculino. A música, que antes era formada pela complexidade rítmica de suas raízes negras, se tornou plastificada e simplificada pela indústria musical. No livro “A Change Is Gonna Come: Music, Race And The Soul Of America” de Craig Hansen Werner (1998), Gloria Gaynor atribui a perda da complexidade rítmica às necessidades do público branco: “Eu acho que era meio difícil para as pessoas brancas se envolverem com o R&B, porque o ritmo é muito sofisticado e difícil comparado com o tipo de dança que elas estavam acostumadas. O ritmo mais claro e simples da música disco atual torna mais fácil que aprendam nosso tipo de dança”.

John Travolta em “Os Embalos de Sábado à Noite”

John Travolta em “Os Embalos de Sábado à Noite”

Além da simplificação dos aspectos instrumentais, seja no ritmo, na melodia ou harmonia, as letras das canções passaram a expressar uma visão de mundo hedonista e individualista, em contrapartida à expressão da luta pela liberdade do povo afro-americano no R&B. Mesmo os valores hippies de paz e respeito à diversidade foram apagados e substituídos. Em “Stayin Alive” do Bee Gees, talvez a principal música responsável pela popularização em massa da disco, o personagem vence suas dificuldades da vida em Nova Iorque simplesmente dançando. Esse discurso rapidamente conquistou a população LGBTI e negra, afinal estar vivo é uma vitória para grupos tão oprimidos na sociedade. A dança nos clubes é uma forma de celebrar essa resistência e ter energia para continuar lutando, mas a música disco industrializada sugere que a solução para os problemas dessas comunidades é apenas se acabar dançando ou ser a “rainha da boate” como em “Dancing Queen” do ABBA.

Parece a estratégia perfeita para conter os avanços que essas comunidades vinham conquistando. A branquitude heteronormativa, detendo os meios de produção da indústria cultural, se apropria das expressões culturais de minorias sociais, esvaziando-as de seus discursos políticos e identitários, e vendendo de volta um produto “adaptado” com o discurso que melhor convém para a manutenção do status quo na sociedade, como em “You Should Be Dancing” ou em tradução livre “Você Deveria Estar Dançando” do Bee Gees. 

Com suas raízes negras e LGBTIs apagadas, a disco tomou a cultura pop. Outros gêneros e estilos musicais, temas de programas na televisão, jingles de campanhas publicitárias, trilhas sonoras de filmes e praticamente todas as formas de mídia de massa passaram por uma “disconização”, saturando completamente o mercado musical. Em 1979, um grupo de roqueiros conservadores, que não suportavam a ideia de um gênero musical nascido de uma subcultura negra e LGBTI ter atingido tanto sucesso, criaram o movimento “Disco Sucks”. O nome possui sentido ambíguo e pode ser entendido tanto pela sua tradução “Disco é uma merda”, quanto por uma metáfora homofóbica, “Disco chupa”. 

O apagamento das raízes não foi suficiente para conter o ódio racista e LGBTIfóbico das parcelas mais conservadoras da sociedade. Em julho de 1979, esse grupo promoveu a “Disco Demolition Night”, convidando pessoas a explodirem seus vinis de disco no intervalo de um jogo de baseball em Chicago. Esse evento tomou grandes proporções e a popularidade da disco diminuiu bruscamente. Naquele mês, os seis lançamentos musicais mais populares nos Estados Unidos eram de disco. Em setembro, dois meses depois, não havia um único lançamento no mesmo top 10.

Disco Demolition Night (Paul Natkin/Associated Press)

Disco Demolition Night (Paul Natkin/Associated Press)

Nesses anos de ascensão e queda da disco no mainstream, a subcultura das minorias continuou firme e forte nos clubes de Nova Iorque e Chicago. A principal influência do abandono da indústria musical se deu na escassez de músicas novas para os DJs tocarem nas festas. O que as grandes gravadoras não imaginavam é que isso motivaria artistas LGBTIs e negros de Chicago a colocarem a mão na massa e produzirem suas próprias músicas, dando origem ao House, “a vingança da Disco” segundo Frankie Knuckles.

A Cena do Warehouse em Chicago

Com toda a bagagem que Frankie trazia de Nova Iorque, o Warehouse foi um sucesso e rapidamente conquistou o público LGBT e negro que frequentava o Den One. Nos anos seguintes, Frankie se tornou uma lenda na cena da cidade, conhecido por conduzir todos os sábados até o amanhecer viagens transcendentais através da música. Em uma entrevista de 1995, publicada no artigo “Frankie Knuckles on the Birth of House Music” em 2018, pelo portal Red Bull Music Academy, Frankie descreve que a experiência era muito espiritual e o clube se tornou como uma igreja para a maior parte do público.

Warehouse (fonte desconhecida)

Warehouse (fonte desconhecida)

Infelizmente, por volta de 1982, a realidade mudou. Com a crescente popularidade, o público branco e heterossexual começou a frequentar as festas, sem qualquer respeito pelo público LGBTI e negro. Visualizando uma oportunidade de lucro, Robert Williams dobrou o preço da entrada dos eventos e excluiu a política de porta que priorizava minorias sociais, abrindo o clube para o público geral.

Deixando de ser um espaço seguro aos grupos socialmente marginalizados, Frankie abandonou o clube para abrir o seu próprio, o Power Plant. O Warehouse acabou fechando e Robert convidou Ron Hardy para abrir um clube novo, o Muzic Box, onde Ron se tornou uma estrela local, conhecido por sets selvagens e descontrolados, em contraste ao som classudo de Frankie. A cena de Chicago, que antes bebia da cena de Nova Iorque, fortemente influenciada pelo gospel da música soul, começou a manifestar um som mais intenso e experimental, com maior influência da música funk, que culminou no nascimento do House.

Ron Hardy no Muzic Box (Reggie Corner/The Way We Were)

Ron Hardy no Muzic Box (Reggie Corner/The Way We Were)

As gravadoras populares da época descartaram o potencial desse novo som, percebendo sua relação com a Disco. Foi através da Trax Records e da DJ International Records, duas gravadoras independentes de Chicago, fundadas em 1984 e 1985 respectivamente, que o house atingiu o mercado. “Music Is The Key” de JM Silk foi o primeiro grande sucesso nos Estados Unidos, atingindo 85 mil cópias vendidas e o 9º no lugar na parada “dance” da Billboard em 1985. No ano seguinte, Farley “Jackmaster” Funk e Jesse Saunders lançaram “Love Can’t Turn Around”, o primeiro house a atingir a parada britânica, com o décimo lugar. Em 1987, Steve “Silk” Hurley, outro nome artístico de JM Silk, consagrou o primeiro lançamento a atingir o topo do ranking de vendas no Reino Unido com “Jack Your Body”.

Diversos clubes na Inglaterra começaram a apresentar noites dedicadas ao house, especialmente à subvertente acid, como o Shoom e o Trip, em Londres, e o The Haçienda, sob direção da banda New Order, em Manchester. Rapidamente surgiram políticas anti-clubes, motivando o público a realizar eventos ilegais e secretos em galpões, dando início à cena rave. Em poucos meses, o sucesso do house e o crescente uso de ecstasy levaram ao fenômeno social chamado de “Segundo Verão do Amor” em 1988. As festas ilegais tomaram proporções gigantes, atingindo públicos de 20 mil pessoas, difundindo rapidamente essa cultura à outros países. Luis-Manuel Garcia observa em “An alternate history of sexuality in club culture” publicada no portal Resident Advisor: “A cultura rave promoveu amor e liberdade como valores fundamentais, mas inclinou-se a manter os papéis tradicionais de gênero e sexualidade intocados. Enquanto enraizada na vida noturna queer, negra e latina – e certamente diferente da cultura ‘mainstream’ dos clubes naquele tempo – a rave no Reino Unido no final dos anos 80 se tornou um fenômeno majoritariamente heteronormativo e branco”.

Rave na Inglaterra em 1992 (Matthew Smith/Saatchi Gallery)

Rave na Inglaterra em 1992 (Matthew Smith/Saatchi Gallery)

Nos primeiros anos de popularidade do house na Inglaterra, muitos DJs de Chicago se beneficiaram com turnês internacionais. Entretanto, a indústria musical da Europa percebeu a oportunidade de lucro rapidamente, começando então a produzir seus próprios artistas e sua própria versão comercializada e plastificada do house, apagando a estética sonora de Chicago nesse processo. A partir da Europa, esse novo house vazio em essência se popularizou no planeta através das mídias de massa.

O House do Futuro

Mesmo com todos os esforços da indústria musical no apagamento das raízes LGBTIs e negras durante a ascensão da disco, não há como negar que a disco carregava, ainda que superficialmente no mainstream, essa identidade. Pela primeira vez na história artistas e grupos musicais atingiram visibilidade midiática com uma identidade LGBTI, como Sylvester e Village People.

O house, sendo um gênero musical predominantemente instrumental e abstrato, em comparação com as composições orquestrais da disco em que a voz e a letra possuíam muita presença, carregou desde sua origem uma identidade negra e LGBTI menos explícita. A perda completa de sua identidade aconteceu quando o house foi dissociado de suas raízes, tanto culturais, da diversidade de minorias sociais nas pistas de dança, quanto estéticas, das influências musicais soul e funk. A comercialização dessa cultura tão diversa deu origem a uma nova, dominada pela branquitude heteronormativa, inicialmente na Europa e posteriormente popularizada internacionalmente. Ainda hoje, com os debates que surgiram na cena de música eletrônica acerca de questões de representatividade, é comum percebermos line ups de grandes festivais e clubes pelo mundo sem pessoas negras ou LGBTIs.

Sobre essa reflexão, Garcia, do portal Resident Advisor na publicação sobre a história da sexualidade na cultura clubber, diz: “é mais fácil para minorias permanecerem no centro de uma cena musical quando ela é pequena, local e pessoal. Uma vez que se torna um fenômeno global maciço, é muito mais difícil para as pessoas marginalizadas permanecerem no centro da atenção. (…) A história é escrita pelos vencedores: à medida que a dance music se tornou mais popular e teve mais sucesso, as pessoas que escreveram sua história seguiram os tópicos ‘mais relevantes’ em ambientes principalmente heterossexuais, brancos e de classe média, esquecendo rapidamente sobre as cenas mais estranhas e coloridas que ainda estavam dançando e fazendo música”.

O movimento Anti-disco faz com que hipóteses permaneçam não resolvidas em nossa cabeça. Teria o house feito o mesmo sucesso se não fosse o afastamento de suas raízes LGBTI, latinas e negras? Se tivesse ficado no underground, teria sobrevivido até hoje? O que teria sido do vogue, por exemplo, parte da cultura queer negra, se Madonna não tivesse o consagrado perante a cultura pop branca?

O nascimento do house se deu pela curiosidade, pela união e pelo interesse de uma comunidade socialmente periférica. Foi seu manifesto artístico e sobretudo libertário para o período em que viviam. Resgatar a cultura do house, seria promover seu reencontro com seus valores, sua reaproximação com a sua razão de existência. Nesse sentido, como na década de 80 ela foi a expressão do que se vivia naquela época e naquele local, hoje nós travamos nossas próprias batalhas e temos que nos permitir nossa própria expressão e nossa própria marca no tempo, mas sem nos esquecermos das nossas raízes e de como chegamos a ser o que somos hoje. O house contemporâneo deve ser fruto de nossas próprias curiosidades e interesses.

Por fim, a tecnologia e a globalização ao passo que nos aproxima de outras culturas, nos torna cada vez mais distantes de seus valores originais, portanto é nosso dever se aproveitar do privilégio de acesso à informação para realizarmos esse resgate. Compreender nosso papel frente à re-identificação do house com a nossa comunidade significa despertar a consciência das pessoas para que busquem pesquisar mais sobre o que se ouve e o que se consome. Significa dar mais visibilidade e poder, tanto na produção musical, quanto nos lineups e na organização dos eventos, para pessoas LGBTIs e negras. Propor políticas nos eventos para que contemplem em todos os âmbitos a diversidade racial e sexual que originou o house.

Não à toa escolhemos lançar nosso portal nessa data, ou com esse texto. Esse é o nosso manifesto e o compromisso da nossa equipe em trazer um conteúdo crítico, informativo e sempre buscando dar visibilidade à nossa comunidade.

Por

Autor Felipe Fonseca
Felipe Fonseca

Artista, pesquisador e comunicador. Nascido em São Paulo, aos 24 anos está concluindo Moda na UDESC e administra sua marca @pochetudo. Defende as pautas da educação e da cultura dentro de uma perspectiva de gênero, raça e classe.

Kosmo

DJ, professor e produtor cultural. É co-criador da BATEU e estuda Música na UDESC. Enxerga a música como uma ferramenta de expansão da consciência.