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Corpo em risco, humanidade e vírus. Yoko_Mizú conversa com Aun Helden na primeira edição da coluna Entre Performers.

Tentar descrever através de palavras quem é Aun Helden, dá a sensação de extrema superficialidade. Sua arte é tão profunda em si mesma, e de igual potência para quem a observa, que tornaria-se limitante usar adjetivos para tentar definir o que é, essencialmente, infinito.

Entretanto, no esforço de fazer uma apresentação aos que ainda não a conhecem, compartilho minha visão sobre sua trajetória. Aun começou a sua pesquisa corporal no teatro, e é evidente que ainda carrega muito da exploração dessa linguagem no seu trabalho: é a partir desta, que cria possibilidades de unir as artes plásticas com a expressão corporal. Foi, porém, só ao conhecer as festas undergrounds de São Paulo, que transformou em performance suas inquietações. Sua imagem, que foge da dualidade humana, conta histórias, demonstra fraquezas e propõe questionamentos, tudo ao mesmo tempo. Aun, além de ser residente do coletivo ODD, já se apresentou nas principais festas paulistas, como: Sangra Muta, Mamba Negra, Caldo e Tormenta. Também esteve envolvida por três anos consecutivos na Casa de Criadores, ao lado do Brechó Replay (2017) e da marca Estileras (2018/19). Em 2019, antes de entrar em um hiato anunciado, apresentou seu trabalho em Barcelona, Berlin, Paris, Milão e Londres. Alguns de seus trabalhos também já foram exibidos em Los Angeles, República Tcheca e Japão.

Entre Performers: Aun Helden

Aun Helden

Para que seja possível usufruir do máximo de elementos que a conversa relatada a seguir dispõe, e com isso aprofundar as reflexões causadas, sugiro dois pontos iniciais: primeiro, contemplem o trabalho de Aun antes de prosseguir, prestem atenção nos detalhes das imagens da artista, acompanhem seus movimentos, se deixem ter as mais diversas sensações, imaginem, percam-se; segundo, estejam cientes de que essa é uma conversa entre performers com o objetivo de dissecar questões artísticas e socialmente relevantes tanto à convidada, quanto à sociedade geral.

Como é desenvolvida em você, a conexão entre o seu “eu performático” e o seu “eu social” no cotidiano? Onde esses dois lugares se encontram e se separam na sua vida?

Nunca se separam, apenas se encontram, e nesse encontro se formam atritos, rachaduras, ambições e fantasias. A separação que existe é entre as minhas criações e o espaço que elas existem, assim como qualquer identidade regurgitada se explode no mundo que vivemos, assim como raízes de árvores que se trincam no concreto de uma calçada.

 

Particularmente, acho muito interessante a maneira que você contrapõe elementos nas suas performances: o choque visual com a delicadeza de movimentos; a artificialidade das próteses e a naturalidade dos ovos; a pele e os pêlos; a progenitora e a castradora. Qual a potência artística que você observa no encontro entre extremos?

Gosto de encapar minhas fragilidades com carcaças densas e brutalescas, assim como órgãos inflamados pelo tempo. Esse lugar passeia justamente no extremo do medo e da esperança, e nesse meio-lugar entre esses dois, nesse encontro, descubro muito mais do que se eu me agarrasse a uma verdade absoluta que já existe em um sentimento extremo.

Entre Performers: Aun Helden

Foto: Sofia Hering

Das expressões artísticas que mais me encantam, o risco é um fator constante. No seu trabalho, chama atenção o estado de exposição que você se coloca através das temáticas abordadas, da certa nudez e dos materiais que você utiliza, como ovos, próteses, galhos e facas. Tudo, inclusive sua corporeidade, parece prestes a ruir. O que significa o risco na sua criação?

Às vezes penso que o suprassumo do corpo que eu gostaria de atingir é aquele corpo que não tem nada a perder, e talvez os lugares de risco que eu me proponho seja uma tática, um gatilho pra existir nessa utopia inatingível. Inatingível pois tudo que sou foi pelo alimento das minhas perdas… identidades perdidas, selos, nomes, sonhos, pés, e falo perda não apenas no lugar negativo de se perder, mas também no lugar de risco, de me permitir arriscar perder para que novas possibilidades possam ser sentidas e criadas. Tudo é um risco só.

 

A persona Aun parece ser uma alegoria bastante definida hoje em dia, uma imagem própria assimilada por quem acompanha seu trabalho. Ao mesmo tempo, você já manifestou ser alguém que elabora exatamente o que quer transmitir como performer. Pensando nesses dois aspectos, me pergunto se você parte dessa sua possível estética já estabelecida como base para cada nova performance sua, ou se existe uma busca constante de mudança para diferentes apresentações?

Eu gosto de contar histórias, histórias que já foram contadas há um tempo e existiram em uma situação que não tive a chance de tocá-las e escrever com as minhas linhas desobedientes. Tudo que fiz até agora, fiz a partir das minhas memórias de criança, adolescente, então eram coisas que já existiam há um tempo e esperavam pela mão artesã e o privilégio da estrutura material. Meu sonho sempre foi contá-las e expurgar na tentativa errônea do lugar de sentir bem e se safar, da fantasia de se criar arte e se livrar de pesos, mas não é bem assim, mas também não é tão não assim. Com tudo que eu fiz até agora, pude abrir muitos outros buracos no meu corpo para sentir e abocanhar novas memórias, e assim criar não só a partir de um passado longe, mas de um mais próximo e quem sabe num futuro.

 

Aun Helden

O uso de máscaras é uma forma de expressão fascinante e muito presente ao longo da história, essa prática me parece acompanhar todo o andamento da humanidade e mistura significados artísticos e ritualísticos. Seja no processo de mumificação do Antigo Egito, nas personificações de espíritos e demônios em diferentes culturas asiáticas e africanas, nas mais variadas manifestações corporais dos povos originários da América do Sul, no uso extremo da maquiagem nos teatros orientais e ocidentais, chegando no cinema, na televisão, nos shows musicais, no nascer das drag queens, e atualmente, quase que como num fechar de ciclo, nas máscaras virtuais denominadas como “filtros”. No seu trabalho, você parece dar muita importância para o seu rosto especificamente, apagando e criando formatos, tanto fisicamente quanto digitalmente. Como funciona esse processo para você, e como você dialoga com a ideia de “máscara”, social e artisticamente falando?

As próteses me surgiram no meu processo de lidar com o estranho, de cutucar a minha caça pela identidade, me vi bixa por muito tempo, e me estranhei bixa por muito tempo, queria criar algo que fugisse do fêmeo e factício, mas também da castra e da expectativa humana, e nas máscaras próteses pude estimular e carimbar essa impressão no meu rosto. Uma sátira animalesca de uma identidade que carrega no seu âmago e na sua entranha, a estranheza, a dúvida, e principalmente a possibilidade, a raiva, a solidão, o medo da extinção e a certeza de uma cadeia alimentar injusta e ingrata. A máscara permite dar esse poder pois nela se imácula tudo que eu citei, já sem ela, eu sinto em partes, principalmente as fragilidades e é o caminho que eu tenho buscado ultimamente no meu processo, enxergar que o poder está justamente no frágil, não no acúmulo.

Uma das minhas referências de infância que acredito ter colaborado no início do meu processo de não-conformação em vários sentidos, foi o desenho dos X-Men. Olhando para a sua história, onde você identifica o surgimento de elementos que se metamorfoseariam em Aun Helden? Quais são as referências (indiretas ou não) que você carrega desde muito nova?

Entre Performers: Aun Helden

Foto: Ivi Maiga Bruenko

Legal você falar de um desenho, pois sempre lembro da TV Cultura como um combustível para a minha imaginação quando criança. A figura da Caipora, a Morgana, os contos de fadas que a Shelley Duvall interpretava as princesas e que tinha uma atmosfera muito macabra e uma trilha sonora bem dark, mesmo sendo para crianças que assistiam a TV Cultura, haha. Essas imagens com certeza vivem em um espaço no meu cérebro, que mesmo não consciente agora, vivem mesmo assim. 

Eu sou trans desde sempre e principalmente desde criança e acarreto isso a todas as perguntas que fiz naquele momento da minha vida, não só pelo fato de já amassar minhas carnes, mas pela minha solidão.

A solidão específica. Á minha religião, a castração, o medo da vida inteira. O silêncio ininterrupto que me acompanha até hoje. O medo de ser errada, de o que eu pergunto ser uma falha na linguagem. Tudo que eu consumi, pelas beiradas ou por inteiro, de criança até aqui, foram na fome de sentir tudo isso, até por um tempo era uma fome de entender, que já desisti dela, hoje é só de sentir e contaminar. Essa é a minha maior referência e nela cabe um mundo que não existo sozinha.

No final de 2019, após um ano de bastante destaque em território nacional e uma turnê europeia, você anunciou que entraria em hiato. Naquele momento, qual era sua expectativa para o seu futuro pessoal? E agora, vivendo essa situação pandêmica e politicamente catastrófica, como você acredita que essa figura concebida que já levantava temas como verme, epidemia, possibilidades de futuro e recriação da espécie, seguirá em conversa (ou embate) com a sociedade?

Depois de contar as histórias que eu contei, queria um tempo, a coisa que os artistas mais almejam em seus processos, o privilegiado tempo. Não o tempo genocida, capitalista e cruel, mas o tempo que nos deixa respirar e não só nos afobar em tropeços e ambições. Não para ficarmos paradas pensando no vazio, mas para pensarmos no imenso de uma forma saudável, que não nos leve a morte. Queria escrever novas coisas, longas, processuais, que durassem eternidades antes de serem servidas para quem quisesse comer. A pandemia chegou para me obrigar a fazer isso, porque estava sendo difícil conseguir esse tempo com as contas para pagar e o mundo girando em um relógio bomba. 

Os seres humanos são os maiores vírus que existem, estamos em uma pandemia há séculos, uma pandemia colonial, racista, transfóbica, misógina, etnocídia, ecocídia…. Parafraseando Audre Lorde, “Não existem novas dores. Já as sentimos antes”.

Todos esses temas seguirão em debate e conflito sem ou com Coronavírus, a pandemia atual só escancara mais ainda as falhas estruturais da nossa sociedade, de quem morre.

Quero sim estar em conversa e debate com a sociedade num geral, mas prezo mais ainda em estar com as minhas, que às vezes não tem a força e possibilidades que eu tenho de existir em ação, em arte, em voz e continuar alavancando novas mãos e estruturas para um novo mundo, que só existirá com a destruição do que vivemos agora. A peste tem a força de uma pandemia, de se alastrar como uma doença, de ferir olhos viris, castrar poderes e gerar e inflamar vidas.

Entre Performers: Aun Helden

Aun Helden

Por

Artista Yoko_Mizú
Yoko_Mizú

Performer e coordenador de perfomances na BATEU. É graduado em Teatro pela UDESC e dançarino profissional. Aborda temas como arte, corpo e gênero.