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Do fogo ancestral ao nordeste moderno, Shankar e Yoko_mizú conversam sobre a arte e sua visceralidade.

“Performar é trabalhar a realidade e não a utopia”, é desse ponto de partida que Shakrona Shankar trabalha sua performatividade. Baiana, de origem Pataxó, Afro e de Turcos Ciganos, ela flui por suas origens na criação de performances rituais. É dança, é canto, é teatro, é drag tranimal, é intervenção, é obra visual, é um acontecimento inteiro, uma obra transitante entre várias artes e vários planos energéticos.

São tantas as linguagens possíveis para analisar seu trabalho que não vale a pena tentar enquadrar sua arte em nenhuma delas – talvez seja exatamente esse o ponto essencial da performance, principalmente na maneira com que a desenvolvemos nas festas brasileiras.

Shankar invoca sua ancestralidade ao se mover e expressa a realidade por trás de todas suas cores de pele. E se o seu próprio nome não for suficientemente forte para intrigar os leitores aí desse lado da tela, eu desafio vocês a não ficarem tão maravilhadas com as imagens dessa artista quanto eu fiquei desde a primeira vez que a vi. Abram os caminhos e aproximem-se para acompanhar a ótima conversa que tivemos.

Shakrona Shankar - Foto: Ana Quesado

Foto: Ana Quesado

Pelo que acompanho do seu trabalho, existem dois elementos que prevalecem ao longo da sua trajetória e que se destacam não só pelo atrativo visual, mas pela exploração e minuciosidade que você tem com eles: o fogo e a pintura corporal. Onde esses dois pontos estão, e o que eles representam, no seu processo de criação?

Das pinturas corporais realmente é muito fácil apontar de onde vem a expressão. É uma das características do Povo Pataxó, povo ao qual pertenço. Pinturas e adornos com sementes, cascas e penas sempre estiveram presentes em minha criação. Hoje impresso em meu corpo existe um leitura mais contemporânea dessa prática. 

E do FOGO, lembro de dois episódios soltos ligados ao elemento. Minha avó contou que sua avó andava/dançava em brasas, e essa frase ficou muito tempo marcada em minha mente até que eu fosse pesquisar sobre o ato de andar em brasas, e é uma das saídas rituais de origem africana. Carrego ele comigo.

Fala-se muito em risco quando pensamos a performance, instantaneamente me vem à cabeça os trabalhos da série Rhythm, produzidos pela Marina Abramović. Hoje em dia, porém, muitas das vezes esse risco é tratado de maneira metafórica, ou mesmo mesclado com o risco intrínseco do “estar em cena” (não menos perigoso ou arriscado). Já no seu trabalho, o risco físico parece sempre presente, você não apenas transmite a sensação de correr certo perigo como efetivamente brinca com ele. O quão importante é para você, se realmente o é, se colocar nesse lugar durante suas apresentações?  

De fato a presença do perigo foi evidente em alguns atos performáticos que protagonizei, e brinquei muito com essa sensação ainda que demonstrando controle sobre o que fazia. Se faz delicado brincar com a sensações que as pessoas sentem mas eu encontro muita magia e potência nessa hora. Amo o medo e o prazer na cara das pessoas ao mesmo tempo.

Shakrona Shankar - Foto: Arnaldo Dantas

Foto: Arnaldo Dantas

Sua performance transborda imagens que remetem à religiosidade e ao misticismo. É automática, ou talvez intuitiva, a identificação com deuses hinduístas e orixás. Contudo, ao olharmos mais de perto, é possível também identificar símbolos cristãos, referências à rituais indígenas e à bruxaria. Junto disso, você também fala bastante sobre ancestralidade. A minha curiosidade é saber como funciona em você e no seu corpo, essa mistura de signos que não costumam ser mostrados juntos na sociedade. O quanto disso tudo caminha com você para além da performance e o quanto é uma exploração somente artística? Existe essa separação? 

Não existe separação a partir do momento que de alguma forma a presença de tais coisas é que me movem e fazem com que as coisas aconteçam ao meu redor. Saúdo minhas entidades e elas me manifestam.

Muitas “criações” foram no intuitivo até eu perceber influência de energias as quais eu acreditava e compactuava. Posso erroneamente não pensar nas minhas entidades no início de qualquer processo criativo, mas no fim elas se fazem presentes em cada detalhe.

Não é sobre fé também. É sobre colaboração e coexistência entre o sagrado e o corpo.

Eu percebo que a apropriação e a ressignificação de termos pejorativos é recorrente à minorias marginalizadas e também à artistas performers, não coincidentemente. A Aun Helden, que participou anteriormente da coluna, fala sobre verme e epidemia; eu gosto de trabalhar com a ideia de mutante e mutação; você evoca fortemente a palavra “monstro”. Gostaria que você compartilhasse o que é esse monstro em você, se ele é fuga ou procura, dor ou prazer.

Com certeza meu monstro tá ligado à contemplação do existir independente da forma ou habitat. O Monstro que eu praticamente sou devota é a mesma criatura que meus parentes e minha criação pixou enquanto criatura que não deveria existir. Esse monstro sou eu em todos os detalhes.

E ele não é um retorno às opressões familiares pois elas se fazem mínimas ao lado das opressões sociais estruturadas de todas as maneiras, ditando sexo, moda, culturas e identidades.

Meu monstro é a resposta pro mundo pra dizer que existo e tô bem, tô feliz e muito bela. Então é sim sobre prazer pois amo confrontar e contrariar.

No teatro, que é a minha principal e primária referência do universo artístico, eu observo uma visceralidade no que é produzido no nordeste brasileiro que sinto muita falta no restante do país, principalmente no sul. Parece-me existir uma urgência no fazer a arte acontecer, que também percorre outras linguagens artísticas. Pela sua experiência pessoal, o que você acha que a arte nordestina tem a oferecer ao restante do país? E o que você acrescentou no seu repertório artístico ao trabalhar em outras regiões? 

Se tem uma coisa que é de fato real nas artes produzidas no nordeste é a visceralidade e a forma com que ela dialoga com as entranhas do espectador. Não encontrei tal coisa em regiões que viajei, as artes não estavam tão viscerais, elas estavam mais pra entreter e agradar quem assiste.

E sim, a arte tá nesse lugar de questionar, provocar, induzir novos pensamentos, e vi muita inércia da parte artística de outros estados nesse sentido. Irreverência é uma palavra sempre marcada em expressões artísticas nordestinas e isso é sobre tudo, desde figurino e a contexto.

Arte é urgente e emergente.

As demais regiões me acrescentaram as pessoas que vibram na mesma conexão de criação e subversões de ordens, reparações, hackeamentos também. As que chamo de família. Pessoas que estão na luta anti-colonial estão em todos os lugares e são de várias origens. Me conecto a elas.

Você já trabalhou em eventos com propostas musicais e alcance de públicos muito diferentes entre si: de festivais gigantescos ao som de trance, passando por festas undergrounds de techno e até participando da abertura de um show da Ivete Sangalo. O estilo de música do espaço em que você se apresenta influencia diretamente sua performance? A relação que você cria com esses públicos são tão plurais quanto os mesmos?

A musicalidade desses ambientes influenciam sim minha performatividade. E isso eu entendi no percurso né, esses processos sobre corpo-espaço-ambiente a gente sente na pele de acordo a tudo ao redor.

O Psy trance me permite uma liberdade imensamente maior, o que não quer dizer que eu tenha problemáticas. Mas sinto as pessoas mais aptas a verem meu ritual inteiro sem estranhamento. Foi dentro do Psy que me desenvolvi artisticamente uns 70%, e dali passei a trabalhar também em outras plataformas… 

O Techno está no lugar do underground, e a coisa tá mais no lugar do imagético, estético, domino isso e acabo não estranhando o ambiente. Quando cheguei na cena do techno em SP as pessoas já sabiam quem eu era pois eu já me fazia presente em visualidade de alguma formas.

Shows com Cantores e Artistas renomados me dão orgulho pois a gente nunca se imagina ao lado de “grandes” mas estar ali não me contemplam tanto enquanto artista. Os bastidores são sempre babado.

Shakrona Shankar - Foto: Arnaldo Dantas

Foto: Arnaldo Dantas

Você parece dialogar bem com as redes sociais no que diz respeito à divulgação do seu trabalho, ao mesmo tempo que, inversamente, sua arte trata muito de elementos e conexões com a natureza. Acho que uma das dualidades eternas na vida de um artista, e especificamente de um artista performer que utiliza de seu próprio corpo como fonte de renda, é conseguir equilibrar a produção artística e a produção mercadológica. Como tem sido estabelecer esses limites e lidar com essas oposições para você? E qual peso você dá, principalmente agora que estamos impedidas de encontros presenciais, manter-se conectada e “viva”?

A maior dificuldade foi realmente ter que me integrar mais ainda das redes sociais, confesso que não tenho saco e uso ela apenas pra fins comerciais. Por vários lados também foi produtivo, pois não vai dar pra fugir de dominar a tecnologia, esse é o meu tempo. Meu público se fez bastante presente e me apoiou inclusive financeiramente nesse período de pandemia, me surpreendi com a capacidade da internet de fazer de fato diferença na minha vida.

Ainda assim, produzir pra me manter na mídia tomou outras proporções, pois não se trata apenas de imagem mas sim de um conteúdo mais denso. Não é mais sobre maquiagem artística, é sobre toda a produção de vida, sobre meu corpo, minha saúde, minha fé.

Por

Artista Yoko_Mizú
Yoko_Mizú

Performer e coordenador de perfomances na BATEU. É graduado em Teatro pela UDESC e dançarino profissional. Aborda temas como arte, corpo e gênero.